DE CAIXAS ELETRÔNICOS A MOTOS CUSTOMIZADAS, CONHEÇA O “PAI” DA BIZ

DE CAIXAS ELETRÔNICOS A MOTOS CUSTOMIZADAS, CONHEÇA O “PAI” DA BIZ
Luiz “Careca” Mingione em ação na Given
A história de Luiz Eduardo Fonseca Mingione merece um livro de memórias, já que carrega em seu currículo experiências pra lá de vitoriosas e peculiares. Criou gabinetes para caixas eletrônicos, foi campeão do Rali Dakar com uma 250cc e hoje customiza motos em Milão (ITA). Luiz “Careca”, como é mais conhecido, é também um dos pais da Honda Biz. Diferentemente de sua antecessora Dream, a motoneta traz como diferencial roda traseira de 14 polegadas e espaço sob o assento. Depois de mais de 20 anos no mercado, a CUB da Honda é a quarta moto mais vendida do País.
Com o mokap de uma nova versão da Biz, no Japão
Em 2002, aos 43 anos, Luiz Mingione assumiu novo desafio, agora como piloto. E, de cara, sagrou-se campeão do Rally Paris-Dakar na categoria Super Production para motos até 250 cilindradas. O estreante na maior e mais difícil competição off-road do mundo rodou quase 10 mil quilômetros sobre uma Honda Tornado 250 entre a França e Senegal, passando ainda por Espanha, Marrocos, Mauritânia.
Campeão do Rally Dakar 2002 com uma Honda 250cc
Depois da fama (industrial e esportiva), o Luiz “Careca” teve de ganhar o mundo após sua saída da marca líder do segmento de duas rodas. Nômade, trabalhou na China, trouxe motos asiáticas para o Brasil (Iros) e, mais recentemente, atuou na Turquia para a Ford. Hoje o paulistano do boêmio bairro da Vila Madalena vive na Itália para ficar mais próximo da família da esposa Isabel – filha de japoneses e que tinha restaurante em Milão – e oferecer uma educação de melhor qualidade para o filho Enzo, de 13 anos.
Placa de reconhecimento assinada pelo presidente mundial da Honda
Irrequieto, esbanjando conhecimento técnico e disposição física, Mingione, hoje com 60 anos, ganhou nova oportunidade, agora na Given Motodesign Italy, um estúdio que customiza motos na “Capital Mundial da Moda”! Então é hora de conhecer melhor a história de Luiz “Careca”, campeão de criatividade, que transforma sonhos em peças funcionais. Neste caso, deixar uma exclusivíssima DUU CR&S ainda mais única. A customização feita na Given Motodesign durou quase um ano e consumiu 25 mil Euros. Confira os principais trechos desta entrevista para o MinutoMotor.
A DUU CR&S em sua versão original
MinutoMotor – Vamos falar das principais características da versão original da moto que você ajudou a customizar?
Luiz Mingione – A moto é uma DUU CR&S – em referência ao numeral dois em um dialeto milanês e as iniciais de Cafe Racers e Superbikes. Foram fabricadas cerca de 150 unidades que estão espalhadas pela Europa. Lançada em 2009 no Salão de Motos de Milão (Eicma), a moto artesanal custava 47.628 Euros, cerca de R$ 208 mil. Infelizmente, a empresa frechou em 2013.
O motor da DUU é um dois cilindros em “V” a 56° fabricado pela S&S X-Wedge, que tem 1916 cm³ de capacidade, 100 cv potência, câmbio de seis marchas e chega a 200km/h. A moto traz chassi de treliça em aço e alumínio e belíssimas rodas em liga leve de 17 polegadas. A suspensão dianteira é invertida e parte traseira conta com braço oscilante e monoamortecedor.
A DUU não tem sistema de freios ABS e para parar seus 245kg (peso seco), a moto usa freio a disco 320 mm duplo na frente e disco traseiro de 260 mm fixado na parte interna da roda.
Peças fabricadas exclusivamente para a customização da DUU
MM – Que tipo de personalização foi feita? O cliente fez sugestões?
Mingione – Esta DUU CR&S foi objeto de uma profunda personalização comparada ao modelo original. O cliente deixou a criação a cargo da Given e acompanhou todo o trabalho de perto, dando sugestões. A moto foi inteiramente redesenhada. Foram criadas várias peças nas partes traseira, frontal e lateral. Com a minha ajuda, Donato Cannatello, dono e designer Sênior do estúdio, pode expressar as ideias de customização e estilo com critérios de funcionalidade, estética e exclusividade. A DUU customizada pela Given Motodesign chama atenção por anda passa.
A maioria das peças foram desenhadas em CAD e depois fabricadas em alumínio. Tantas outras foram feitas à mão, seguindo a inspiração do momento. Segundo Donato, neste tipo customização é sempre bom deixar uma parte do trabalho para o coração e a sensibilidade do momento. Com certeza a emoção fez toda a diferença neste projeto.
DUU reestilizada pela Given Motodesign, estúdio que fica em Milão (ITA)
MM – Como foi o passo-a-passo desta personalização. O que foi feito? Quais as dificuldades? Quanto tempo?
Mingione – Esta moto foi o resultado de muito trabalho de projeto, que inclui sempre uma fase preliminar de conceito 2D em que submetemos ao cliente e onde tentamos deixar claro todos os pontos que serão objeto de modificação. Feito isso prosseguimos com a definição do projeto desenvolvendo com o uso do computador, mas também não abdicamos de fazer desenhos a lápis na oficina.
Todas as peças projetadas em CAD foram feitas em CNC em alumínio, plexiglass e ABS, entre outros materiais. Este projeto levou quase um ano de trabalho, desde os schets com as ideias iniciais, trabalho de CAD, fabricação, pintura e acabamento das peças e modificações sugeridas pelo cliente. Algumas dificuldades foram resolvidas durante a montagem. Outros pequenos problemas surgiram durante o teste de rodagem e foram prontamente solucionados.
Moto em fase de reconstrução no estúdio milanês
MM – Quantas pessoas trabalharam neste projeto. Descrever a função de cada elemento da equipe?
Mingione – Trabalharam neste projeto Donato Cannatello, designer, proprietário da Given Motodesign e líder desta customização; Marco Jimenes, designer Sênior; Fabio Spiga Casadio, designer; Paolo Zanetti, mecânico especializado, e eu, que fiquei responsável pela modelagem – clay –, sugestões e soluções para algumas peças, pintura, montagem e teste de rodagem.
Dianteira ganhou formato triangular e monoamortecedor
MM – Alguma solução criativa adotada nesta customização?
Mingione – Sim. Eu posso citar a suspensão dianteira – que traz monoamortecedor Öhlins –, a parte de iluminação traseira e frontal de LED e o uso materiais de acabamento como cobre. Muitas peças foram feitas artesanalmente em resina, ABS, além de outros materiais. Na minha opinião esta reunião de materiais e formas inusitadas fizeram a diferença no visual desta releitura do modelo.
Traseira com peças feitas em cobre e lanterna de LED
MM – Como é trabalhar com o designer que criou a moto originalmente?
Mingione – Já trabalhei com designers da Honda no Japão; chineses da UM United Motorcycle e Zongshen na China; com designers turcos na Ford em Istambul; brasileiros da Honda e agora na Given Motodesign na Itália. É um grande prazer e aprendizado trabalhar com alguém com a experiencia de Donato Cannatello. Ele é experiente, criativo e rápido em buscar soluções para o desenvolvimento e fabricação de peças especiais. Conhece muito de motocicleta, de customização e põe, literalmente, a mão na massa, como um autêntico italiano. Trabalhamos com música na oficina, Apesar da seriedade e responsabilidade na personalização de uma mota há sempre tempo boas histórias, risadas e trocas de experiências. O ambiente e a equipe são excelentes. Estou aprendendo muito com Donato. Ele é diferente de todos os outros com quem já trabalhei na vida. E em nossas reuniões de final do dia sobre o projeto sempre ‘rola’ uma cerveja para descontrair.
Mingione com a nova DUU rodando pelas ruas de Milão (ITA)
MM – Como é o comportamento dinâmico da moto?
Mingione – Apesar do peso, tamanho e sem nenhuma eletrônica embarcada, a nova DUU surpreendeu. Quando tive o primeiro contato com a moto imaginava que seria difícil pilotar na cidade, mas o modelo tem uma ciclística muito boa. Além das modificações estéticas, alteramos o sistema de suspensão dianteira, que ganhou um design exclusivo e oferece bom comportamento.
A DUU tem um bom desempenho na cidade, rodando no trânsito maluco de Milão. Mas ela mostra seu melhor potencial de performance e dirigibilidade nas belas estradas secundarias e autopistas italianas. Ela tem um motor monstruoso e forte, vibrante, literalmente. A moto tem pouca autonomia e não tem o conforto de uma moto japonesa, que é minha referência. Mas, em tiros rápidos, é muito divertida e prazerosa de pilotar. Além, obviamente, de chamar muito a atenção por onde passa, isso em função de seu design totalmente exclusivo.

A “DAMA DE PRATA” DO MOTOCICLISMO BRASILEIRO

Há 32 anos pilotando motos e 18 participando do Rally dos Sertões – uma das maiores e mais exigentes provas do off-road mundial –, Moara Sacilotti pode receber o título de a “dama de prata” do motociclismo brasileiro. Não por seu sorriso largo, muito menos pelo brilho de seu capacete. A experiente piloto de 39 anos adotou um hobby como profissão. Há alguns anos ela transforma prata e ouro em joias feitas de forma artesanal.

De mãos delicadas, mas ao mesmo tempo firmes e fortes, a piloto de rali muitas vezes usa ferramentas de moto para dar forma às suas obras. “O motociclismo tem poucos recursos. Por isso, quando tenho alguma dificuldade para desenvolver uma nova peça vou na minha caixa de ferramentas e tento adaptá-las para esta produção”, explica Moara, dizendo que não é um ourives experiente, mas sim uma iniciante na profissão, que exige foco, determinação e muita concentração. É como pilotar uma moto”!

Hoje, Moara cria vários tipos de joias, muitas delas com a temática carro/moto, que podem servir de pingente, pulseira ou até chaveiro. Mas ela também fabrica brincos e anéis. “Hoje uso prata 950 pura, com apenas 5% de cobre. Recentemente fiz um chaveiro, que precisava ser mais resistente, rústico, por isso optei por uma liga de prata com 7,5% de cobre (926). No final, a peça ganhou mais rigidez. Mas existe ainda a opção de joias feitas em ouro”, conta a esportista.

Tudo começou em 2006
A paixão pela ourivesaria começou na época da faculdade de fisioterapia. Incentivada por uma amiga – Raquel –, Moara se apaixonou por esta nova oportunidade profissional, que foi adotada de pronto. Depois de formada Moara deixou músculos e tendões de lado para focar em martelo e maçarico para fundir metal.

Fez cursos e, aos poucos, foi se especializando. O mercado perdeu um fisioterapeuta, mas ganhou um ourives que traz em suas peças a paixão por competições a motor. Depois de um intervalo de alguns anos para ajudar o pai na administração da empresa familiar – segurança patrimonial -, Moara retorna ao atelier em 2016 para acelerar, efetivamente, sua nova profissão.

Com apenas 1,60 e 53 quilos, Moara Sacilotti quer ir cada dia mais longe, agora com suas criações inspiradas no universo das competições – Rally Dacar, Rally dos Sertões etc . Ela também desenvolve outras temáticas e peças sob encomenda. Agora a sempre agitada motociclista quer investir seu tempo livre na criação de peças artesanais e exclusivas, mas que tem a consciência que precisa evoluir, como sempre fez em seus treinamentos dentro e fora das competições de moto.

Quem quiser conferir alguns trabalhos da “dama de prata” Moara Sacilotti basta seguir o perfil Moh Joalheria de Autor, no Instagram. As peças custam entre R$ 80 e R$ 200. A variação de preço se dá pelo tamanho, peso, metal e quantidade. A produção de apenas uma peça pode durar entre 8 horas a 3 dias, dependendo do grau de dificuldade e dos detalhes.