HD Sportster 2021 – Do Evolution ao Revolution – E a tradição? – Parte 2

2021 Sportster S – Scotland Photo Shoot

A família Sportster é a mais longeva em produção da Harley, está em linha desde 1957. Quando surgiu tratava-se de uma evolução dos modelos K e KH. Em 1986 chegou o motor Evolution, que equipa Iron 883, 1200 e Forty Eight até hoje. O propulsor com dois cilindros em V a 45º e movido por tuchos e varões é uma característica tradicional que identifica a moto como sendo uma Harley-Davidson, da mesma forma que a grade e o “Spirit of Ecstasy” estão para a Rolls-Royce, por exemplo. Diferente do que acontece com os motores das motos Big Twin, que desde o famoso Knucklehead, não mudou a sua arquitetura padrão (passando pelo Panhead, Shovelhead, Evolution, Twin Cam e chegando ao atual Milwaukee-Eight). Ou seja, a marca optou por instalar um motor não-tradicional na Sportster que, aliás, se tornou sua assinatura ao longo das décadas.

Faz sentido, se olharmos a história do modelo de maneira retrospectiva, no final da década de 50 e início dos anos 60, os EUA estavam sendo inundados por motos “standard” britânicas como, por exemplo, Triumph, Norton, BSA e Vincent que eram mais potentes e dinâmicas. A resposta da HD veio na forma da Sportster. Nos tempos atuais, as Sportsters deixaram de ter esse “appeal” esportivo para se tornar uma moto de entrada e ao colocar o motor Revolution Max, de 1250cc. A intenção (inclusive do Marketing) era trazer o “sport” de volta para as Sportster.

2021 Sportster S – Scotland Photo Shoot

Mas ao olharmos a moto, reconhecemos ela como uma Harley? A resposta simples: não. Muito das características foram completamente abandonadas com este novo modelo, como o motor. Mas não é apenas isso. Os comandos de punho da Harley, seguem um padrão particular que é diferente de toda a indústria. Um exemplo clássico (e que para alguns é motivo de crítica) e o botão que aciona as setas direcionais, estarem cada um localizado no punho do lado da seta (botão para a direita, no comando da direita, botão para a esquerda junto aos comandos do lado esquerdo), além das próprias manoplas possuírem um diâmetro maior do que o convencional de outros fabricantes. Foi adotado os mesmos comandos de punho com milhares de botões idênticos à Pan America e muitos deles servem para comandar a tela de 4” de TFT.

Manoplas, manetes, pedaleiras e comandos de pé vão seguindo também um mesmo padrão igual a qualquer outra moto do mercado e com esta “pasteurização” as características inerentes à marca vão se perdendo em favor de se cativar todo um público jovem. A grande pergunta que fica é: Vale abrir mão de toda uma identidade para se encaixar em “padrões” de aceitação no mercado?

As pessoas buscam marcas (carros, motos, relógios e afins) sejam por seu status, por suas características técnicas, visuais ou até mesmo nostalgia. Vamos analisar o ponto em dois segmentos distintos: Se a Rolls-Royce deixasse de produzir modelos com a sua tradicional grade frontal e seu mascote e colocasse algo mais tradicional, como seria a percepção? Estaria o comprador adquirindo algo que seria identificado como um Rolls-Royce? Na mesma visão, se a Rolex passasse a produzir relógios quadrados e digitais (como os Casio G Shock), estaria o comprador comprando algo a ser identificado como um Rolex ou algo que poderia ser perfeitamente confundido por outra coisa?

Por outro lado, temos que olhar o mercado e a competição que a Sportster tradicional enfrenta hoje. Dentro do mercado americano, a principal concorrente da Harley-Davidson é a Indian e esta tem como seu modelo “alvo” mirando nas Sportster, a Scout (e suas variantes), que hoje são equipadas com um motor mais moderno, de arrefecimento líquido, e bem mais potente que o tradicional Evolution, que vem equipando as Sportster até então.

Além disso, a própria Indian, uma fabricante que até 1953 produzia motores que eram igualmente característicos (e a Polaris ainda manteve as características no ThunderStroke), provou que um motor moderno pode ser muito bem aceito, mesmo não sendo refrigerado a ar e possuindo tuchos e varões. A Scout que tem seu motor em V a 60º, de 1133 cc e com 100 cv de potência é um modelo que tem sua aceitação no mercado e da mesma forma, a Indian lançou recentemente uma Touring chamada Challenger com um novo motor usando o nome tradicional PowerPlus, porém de refrigeração líquida. E aqui, também mudando a história, já que o PowerPlus sempre foi um motor refrigerado a ar.

As novas Sportster serão aceitas no mercado e serão sucesso de vendas? O tempo dirá. Mas nós acreditamos que o nome poderia ser mantido para um modelo que ainda mantivesse as características de uma linha de 64 anos e deixado para que este novo modelo lançado tivesse outra nomenclatura. Alguns ainda especulam que isso possa acontecer, já que a Harley deu entrada na patente de um propulsor refrigerado a ar com comandos variáveis de válvulas, que muito se parece com o tradicional motor de Sportster, apenas o tempo nos dirá. Por ora, observaremos cautelosa e ansiosamente, os próximos passos da Harley-Davidson.

Texto: Dan Morel. Edição Aldo Tizzani